4.9.09

Subcultura e grupos organizados na Alemanha

O CBB Intercambio é uma experiência entre grupos organizados de cultura no Brasil, Uruguay e Alemanha que praticam política em suas atividades artísticas e culturais. Em seu terceiro encontro, no final de 2008, os latinos foram convidados a conhecer as organizações dos jovens germânicos, e a maior força disso, pode se dizer que são as casas ocupadas, as Besetzte Häuser.

A Alemanha é um país referencia do graffiti no mundo, a capital Berlim é hoje o centro para o punk rock mundial, além de palco de raves gigantescas. Mas podemos ir muito mais além do que as tendências da estética, da sonoridade que sugerem a contestação de um padrão global. Podemos conhecer formas reais de se viver um outro projeto de sociedade. As casas ocupadas abrigam as manifestações da subcultura na idéia de uma nova forma de viver, e sua principal essência é ser autônoma.

Imóveis abandonados e inúteis a comunidade, com condições precárias, são ocupados por pessoas, em sua maioria jovens, que buscam uma forma diferente de vida, contra a individualidade e a alienação, mas muitos não tem como sustentar o alto custo de vida europeu. A cada ano a taxa de pobreza cresce na Alemanha e o Estado tem menos condições de subsidiar o cidadão.

Eles restauram a casa e vivem em uma organização aberta e comunitária. Para custear isso tudo além de uma taxa de acordo com as possibilidades dos moradores, que acaba sendo um custo bem menor para se viver na Europa hoje, atividades como shows, debates, cinema, teatro, bares, cozinha para o povo (paga se tem como pagar), movimentam o local e arrecadam custos. Na maioria das casas a comida é exclusivamente vegetariana. Todas promovem manifestações para chamar a atenção da sociedade para o movimento, se solidarizando com outros espaços livres e buscando o apoio da comunidade. Das cinco ocupações estivemos narramos a história de algumas delas aqui.

Centro de cultura, parte da história mundial.

Em Erfut a Topf & Söhne conta uma parte da historia mundial. Tuff era uma antiga fabrica de equipamentos industriais e durante o Holocausto fabricou os fornos crematórios para os campos de concentração. Sua gigantesca área fora abandonada depois da queda e seus dirigentes presos ou foragidos. Ocupada em 2001 por pessoas que querem contar esta historia - para que de nenhuma forma se repita – abrigava cerca de 20 moradores de diferentes orientações políticas, punks, anarkistas, de diferentes orientações sexuais, em busca de uma convivência comunitária e livre, onde a ausência de regras constrói sua própria organização.

Seu bar é palco do punk e do metal core, e nos cartazes uma banda vegan e brasileira se destaca, Confronto, da Baixada Fluminense, que tocam em vários lugares da Europa - e vale dizer que é muito mais difícil para eles tocar na Baixada. É a verdadeira Rua da Fama para grafiteiros, onde crews de diversas partes do mundo já escreveram seus nomes. O CBB também homenageou Bertold Brech nas paredes do casarão.

Nossa festa foi neste lugar “relíquia” para a subcultura. Rolou uma jam entre os músicos dos três paises e o Theater Zucken, com a metodologia do Teatro do Oprimido de Augusto Boal, que levantou a questão do assedio do homem à mulher, até uma brasileira dominar a situação, se mostrou preparada para encarar a situação opressora – imaginem o porque.

Apesar de toda a atividade, propósito e importância da ocupação em abril deste ano recebemos o vídeo que mostrou a invasão e destruição deste local pela polícia, que se transformará provavelmente em comércios e apartamentos.

Apoio da comunidade, principal estratégia.

Em Tubingen, cidade universitária as mansões nas áreas mais nobres, nas colinas, serviam de casa de alto luxo para os estudantes que ao se formarem custeavam as casa para os novos universitários. Porém é uma destas colinas que está a Leibnitzhaus 2. Lá os moradores, em sua maioria estudantes e imigrantes, realizam um Festival chamado Plattform: NOBUDGET, ou seja: Plataforma: Orçamento nenhum, com vídeos, musica eletrônica, poesia, graffiti, performances e workshops, inclusive com produção áudio visual, recebendo cerca de 800 pessoas por dia em um evento de 72 horas diretas. Assim se manifesta o apoio da população, protegendo este movimento da ação da polícia.

Esta é a principal estratégia da Lu 15, um casarão onde vivem cerca de 26 pessoas e é uma espécie da associação oficial que se encarrega com a comunicação com a sociedade, a comunidade, a imprensa, realiza atividades abertas e tem o total apoio dos grafiteiros que eternizam seu nome nos espaços disponíveis da cidade, como no Centro social jovem local.

Sua organização é dividida em grupos de trabalho, como finanças, comunicação, se reunindo semanalmente. A loja grátis é um exemplo de funcionalidade, se precisa leva se não precisa deixa.

Não são grupos organizados “oficialmente”, muito menos registrados burocraticamente, somente em caso da necessidade de uma pessoa jurídica ser representante em algum processo, no caso da casa que arrecadou fundos para sua compra.

As ações mobilizam os indivíduos entorno de uma causa e seguem a risca as estratégias discutidas abertamente. Assim as ações se concretizam. Não são grupos políticos, mas a estrutura é política.

Conhecer possibilidades de uma vida comunitária alternativa que preza pela igualdade e o respeito contribuiu na crença pela probabilidade de sermos capazes de construirmos sociedades justas. E nos chamou a atenção o fato de que a subcultura está constantemente presente e interligada as ações, desenhando sua estética e suas perspectivas com relação a um novo projeto de sociedade.

11.8.09

E o Hip Hop Ainda Não Morreu.

O Hip Hop no Brasil se constitui a partir do contexto de cada região, condicionados pela diversidade cultural, pelo mercado e a produção cultural local, pela conjuntura política e a atuação dos movimentos sociais tradicionais. É potencialmente uma poderosa alternativa para a juventude sem perspectivas de futuro e cada vez mais excluída da sociedade. ..Em recentes Conferências.., seminários e redes de cultura é apontado como um importante canal de diálogo, de capacitação e desenvolvimento, devido à identificação com esta mesma juventude.


Diversidade de cada região

São Paulo, o berço do Hip Hop no Brasil, experimenta as mais diversas expressões do Hip Hop tanto no que tange ao desenvolvimento de sua arte como do movimento sócio político. As crews do Break iniciaram movimento no Brasil nos encontros na estação do Metro e se proliferaram por todo o estado, em que a capital está no hall das maiores metrópoles do mundo a ter o grafitti na composição de seu cenário urbano, o movimento guarda a inspiração da luta do movimento sindical, de onde surgiu nosso presidente Lula. Porém uma característica se mostra mais forte é a apropriação da periferia para então depois a sociedade dar espaço legitimado ao Hip Hop como organização social, exposto muito através do fenômeno dos Racionais MCs conquistando todo o Brasil utilizando sua estratégia independente.

Já na região norte e nordeste a forte cultura regional e o distanciamento dos meios de comunicação, concentrados no sudeste, impulsionaram uma forma de organização própria e autogestionada, se tornando os precursores na construção de uma identidade genuinamente brasileira, com o apoio das comunidades e da sociedade local, lhe proporcionando a autonomia e a produção independente.

Porto Alegre, onde a população tem como característica a participação política e a influencia da esquerda, o movimento revela uma preocupação maior com a organização política, com referencias aos movimentos sociais tradicionais e um apontamento da necessidade de uma unidade nacional.

O Hip Hop no Rio de Janeiro despertou o interesse da sociedade através da cena underground com diferentes sonoridades e temáticas diferenciadas. Perto dos meios de comunicação nacionais e cidade das tendências de comportamento o mercado cultural se apropria dos elementos artísticos e da estética do Hip Hop por determinados períodos. O que já foi o grande filão dos produtores cariocas, hoje os poucos artistas que trabalhavam exclusivamente com sua arte recorrem à cena de outros Estados para preencherem sua agenda de trabalho. O movimento se apoiou na arte educação, porém a periferia não se apropriou por diversos fatores, um deles a consolidação do funk como linguagem oficial das periferias cariocas. Os arte educadores do Hip Hop trabalham em associação á instituições tanto governamentais quanto da sociedade civil.


Processos de Desenvolvimento

Partindo de todas estas diferenças nos processos de construção há dificuldades que é comum a todos. O estereótipo forjado – do Hip Hop que prega os valores do sistema capitalista - tem o poder de disseminar qualquer iniciativa de compromisso com a revolução intelectual, que ainda se verifica no Brasil. Porém em um país que não conta com um mercado de grande porte a busca pelo reconhecimento e o fortalecimento pode conduzir o movimento cultural a atingir outros interesses (partidários, ideológicos e financeiros) ao se utilizarem de suas estruturas e estratégias. A promessa da popularização para a sociedade antes da apropriação da periferia, reduz uma idéia á um produto, devido á exigências do mercado, que afirmam um Hip Hop que não existe no Brasil, da ostentação de ouro, carro e mulheres.

A estagnação dos movimentos sociais contribuiu para a rejeição das organizações tradicionais que pode privar o movimento cultural de conhecimentos fundamentais para o trabalho pela transformação da sociedade, fazendo com que se organizem de forma isolada externamente refletindo internamente.

A divisão entre “militantes” e “artistas”, apesar de ser uma dualidade quase implícita desta cultura, é um conflito antigo e consta desde suas primeiras organizações. A complexa integração entre arte e movimento levanta muitos debates e faz com que os “artistas” não tenham o apoio do movimento para sustentar discursos e os “militantes” não potencializem a influencia dos elementos artísticos que não estão inseridos organicamente no movimento. Isso divide as conquistas e dificulta a superação das dificuldades, pois não existe um espaço que possibilite a evolução destas questões em coletivo.

Essas dificuldades devem ser superadas pelo desenvolvimento do movimento e da arte, ou seja do Hip Hop, para a princípio expor á sociedade os diversos fatores positivos que ficam barrados atrás destas questões.

São eles as produções musicais que estão inovando a musica brasileira (o que The Black Eayed Peãs fez com Sergio Mendes os grupos undergrounds do Rio nasceram fazendo), dou um exemplo a BossaRap, onde o pioneiro é um rapper, poeta e professor de língua portuguesa; o resgate do Vinil que foi impulsionado pelos Djs de Hip Hop que fazem performance nas pickups, musica eletrônica criada a 4 mãos, improvisada como o freestyle, que hoje faz referência á formas de improvisação genuinamente brasileiras como o repente; As organizações tradicionais teem no Hip Hop a mais direta forma de diálogo com jovens nas comunidades por agregar valores através de uma expressão artística que ele se identifica; a legitimação de uma cultura protagonizada pela juventude e de periferia para influir nas decisões a respeito de seu desenvolvimento e de sua comunidade.


Organização

Hoje o movimento cultural Hip Hop não conta com um espaço comum, apesar de já existirem mecanismos para isso. O mundo vive em um sistema político capitalista, burocrático e careta que nos exige um processo de capacitação, construção do coletivo e de assumir um posicionamento. Diante desta conjuntura como um movimento cultural pode se posicionar para um dialogo com esta sociedade para seu desenvolvimento? Este processo está acontecendo com muita influência dos órgãos assistenciais e governamentais que enxerga seus potenciais políticos, sociais e educativos. O que pode ser benéfico, a partir da carga histórica que podemos absorver, ou não, pois corremos o risco de reproduzir velhas práticas estagnadas e enfraquecer nossa capacidade de mobilização das periferias e da juventude. Quando a iniciativa alcança a autonomia seu posicionamento enquanto organização sócio política na sociedade encontra grandes dificuldades em se afirmar alem do segmento qual trabalham.


Arte

O Hip Hop tem hoje uma projeção muito maior do que no passado, porém não tem um mercado que atinja a população ou construa uma cena permanente. O mercado que existe tem um consumo altamente norte americano, pouquíssimos rappers alcançaram o mercado de massa, mas há uma rede alternativa que produz de uma forma preocupada com a identidade brasileira e que em sua maioria se mostra comprometida com um posicionamento político, cultura brasileira e inovação. Essa produção ou é underground ou é do movimento organizado, pois não existe uma unidade de forma a potencializar esses fenômenos para o Hip Hop como um todo.


Diante de uma diversidade de conjunturas em um momento de construção o Hip Hop vê a necessidade de integração de seus trabalhos por todo o território. Da arte com o movimento, de seu posicionamento político, sua autonomia perante aos processos em andamento. Então o movimento cultural pode caminhar em um mesmo passo para a consolidação de espaços coletivos, autônomos e capazes de se posicionar como esferas públicas de transformação da sociedade.

Texto produzido por Giordana Moreira para a oficina "Hip Hop pelo Mundo"